Carmen da Silva

 
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Sobre o Projeto

 

Carmen da Silva e o dever da memória

“Ao redescrever a contemporaneidade cultural, reinscrever a mulher na comunidade humana e histórica apontando os problemas que vivenciava, Carmen da Silva, precursora do feminismo brasileiro ‘tocou o futuro em seu lado de cá’; nessa medida, seu espaço tornou-se espaço de intervenção no aqui e no agora, onde, engajada, ela interferiu com suas ‘histórias híbridas’, com seu texto precursor, para mudar o pensamento das mulheres em época marcada pelas tradições puritanas e conservadoras, e assim, influenciar a história de uma geração de brasileiras”.

Nubia Hanciau - FURG*

Este site é resultado do projeto de pesquisa “Carmen da Silva, uma rio-grandina precursora do feminismo brasileiro”, inscrito sob o n. 597553 no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande. Constitui-se em desdobramento das reflexões e pesquisas em estudos literários realizados ao longo de minha formação acadêmica, quando da elaboração de dissertação de mestrado e tese de doutorado, ambas concluídas e defendidas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em 1994 e 2001, respectivamente, sob orientação da professora Zilá Bernd. Nesses trabalhos, o suporte teórico da crítica literária feminista, da nova história, e o entrecruzamento da literatura com a história revelou-se fundamentais e incentivador para as propostas apresentadas.

Outros projetos de pesquisa na área desenvolvidos anteriormente na mesma Instituição (FURG) atestavam que era possível caracterizar na contemporaneidade uma estética própria da escrita feminina, estabelecendo questionamentos direcionados do mais amplo ao mais particular, os quais revelavam modificações significativas nas condutas das mulheres, na medida em que elas ocupam cada vez mais os espaços públicos. Nessa perspectiva, acredita-se na validade da recuperação do papel desempenhado por Carmen da Silva, autora rio-grandina, ícone dos principais movimentos feministas brasileiros.

A presidente Dilma Rousseff quando militava no movimento estudantil, coordenou várias palestras de Carmen da Silva. Segundo ela, “nos anos 1960 [Carmen] publicava artigos memoráveis na revista Claudia. Tudo começou com Carmen, uma inspiração para a autonomia e independência da mulher. Nossa geração deve muito a ela” (Claudia, fev. 2011). Por esta razão, entre outras, é oportuno expandir e divulgar os trabalhos e as lutas de precursoras feministas, a exemplo de Carmen da Silva, que em muito contribuíram para melhorar a condição social da mulher e da sociedade em geral.

Por outro lado, a produção literária feminina, identificada por imagens, alegorias e símbolos que apontam para a situação da mulher como sujeito da cultura de forma diferenciada, distingue-se da experiência dos escritores. Verifica-se neste âmbito que a autora nascida em Rio Grande, além de enfocar a história local de uma determinada época (século XX), apresenta em sua escritura identidade temática com estudos que confirmam a hipótese da existência na maior parte de sua obra de uma estética feminina. Na posição de pesquisadora, voltada para as questões da historiografia literária e do feminino/ismo, observei ainda e com pesar que, embora Rio Grande seja o berço de Carmen da Silva, seu devido reconhecimento enquanto feminista avant la lettre, cuja influência foi marcante no destino de tantas mulheres no final dos anos 1960 e nas décadas de 1970/80, não aconteceu em sua cidade natal, tampouco em âmbito estadual e nacional. Carmen da Silva é pouco ou raramente lembrada. Certamente é este um dos motivos que explicam a razão de estudantes e comunidade local ignorarem sua existência, muito embora se saiba da importância da autora, que assina várias publicações dentro e fora do país e foi premiada várias vezes.

Na condição de responsável pelo projeto “Carmen da Silva, uma rio-grandina precursora do feminismo brasileiro” decidi organizar este site que possibilitará o desenvolvimento de pesquisas com enfoque nas histórias “híbridas” desta "mulheróloga"/escritora preocupada com as mulheres e a forma como enfrentaram seus problemas, tanto no nível da ficção quanto no das relações entre a ficção e a realidade social, histórica, cultural, econômica e política do país.

Concomitante aos movimentos feministas internacionais, constata-se na virada da década de sessenta/setenta do século passado, entre as novas gerações e em decorrência das grandes influências culturais no mundo ocidental, a ocorrência da invasão de temas até então raramente abordados, entre eles: a necessidade de a mulher tornar-se dona do seu destino, o aborto, o machismo, o feminismo, a maternidade, o sexo, todos eles temas relacionados às questões da identidade da mulher e sua afirmação na sociedade, enfoque que causou importante transformação na historiografia e no sistema literário. Tais tópicos são contemplados não apenas pela crítica literária feminista, mas ocupam igualmente posição original no campo renovado da história, constituindo-se em fenômeno significativo na cultura contemporânea.

Carmen da Silva integra o projeto de descrever a condição das mulheres obscuras, distanciadas das peripécias e das mazelas recorrentes no exercício do poder. Sua narrativa, impregnada de poderosa visão da natureza e da feminilidade, a leva a demonstrar o quanto o elogio da pureza feminina pode consagrar o desprezo à mulher real.

Além desta, desenvolvi outras pesquisas que contemplam o método comparativo aplicado a obras de escritoras das Américas de expressão francesa; ensaios críticos e traduções com enfoque na escrita feminina foram igualmente publicados. A dissertação de mestrado a respeito das constantes da literatura quebequense na obra de Anne Hébert, autora representativa da francofonia contemporânea e das questões das mulheres em âmbito universal, abriu caminho para os estudos posteriormente desenvolvidos a respeito do assunto, em que se destaca A voz da crítica canadense no feminino, em co-organização com Eliane Campello e Eloína Prati dos Santos (Ed. da FURG, 2001). Em tese de doutoramento defendida em 2001 comparei três escritoras das Américas de língua francesa: Anne Hébert, Maryse Condé e Nancy Huston, com fundamentação teórica na nova história e na crítica literária feminista, pesquisa que deu origem à publicação A feiticeira no imaginário ficcional das Américas, Ed. da FURG, 2004, Prêmio Melhor Tese em Estudos Canadenses em 2004, Prêmio Pierre Savard, em 2005. Somam-se a essas atividades pesquisas com orientação a discentes, textos e artigos realizados em áreas correlatas, e respectivas publicações.

O desenvolvimento dessas pesquisas com enfoque notadamente na escrita de mulheres amplia os horizontes da crítica literária, traz à luz obras inéditas no contexto local e contribui para a atualização, o conhecimento e a análise de publicações de autoras que lidam com temário inovador no âmbito dos estudos acadêmicos, onde predomina o cânone e a autoria masculina.

As obras ficcionais de Carmen da Silva ao atentarem para as questões que concernem à mulher brasileira desempenham igualmente papel importante na conscientização e mudança do pensamento. A escritora foi sem dúvida uma das primeiras a ousar falar sem temor no problema da opressão feminina, por intermédio de artigos em jornais e revistas de ampla circulação, defendendo ideais de libertação; dessa maneira, ao mesmo tempo em que consolidava seu talento enquanto escritora ela influiu na estrutura do pensamento feminino. Sua obra ficcional apresenta parentesco íntimo com a autobiografia, com os romances de memória e testemunho. As teses que defendeu mantêm até hoje validade e força, pois se inscrevem na história da literatura feminista, na história da literatura e na história, contribuindo para a lucidez do movimento feminino nacional.

As adversidades, os limites e preconceitos que Carmen da Silva enfrentou na sociedade local e nacional, aproximam-na de Simone de Beauvoir, particularmente na produção autobiográfica da escritora francesa, Memórias de uma moça bem-comportada (1958), obra que se identifica desde seu título com a autobiografia Histórias híbridas de uma senhora de respeito (1984), cujos pontos em comum e contrapontos a pesquisa decorrente deste projeto estabelece. De acordo com a consagrada citação de Beauvoir, como se sabe, precursora dos movimentos internacionais que buscavam o reconhecimento dos direitos da mulher, “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino”. Esta afirmação em O segundo sexo (1949), hoje discutida, além de ser considerada lema/estandarte dos primeiros movimentos em prol da emancipação da mulher, condensa a desmitificação radical da condição feminina empreendida pela autora francesa e explorada na obra da brasileira Carmen da Silva. Embora partam de perspectivas culturais distintas e apresentem por vezes pontos de vista diferentes, Silva e Beauvoir sustentam o mesmo projeto: desvelar uma nova e inovadora visão da mulher enquanto personagem literária, histórica e social.

O primeiro passo da pesquisa constituiu-se em levantamento/recenseamento da obra de Carmen da Silva no âmbito da Iniciação Científica CNPq/PIBIC, para situá-la no contexto da literatura nacional. Com base na crítica literária feminista, jornalística e na nova história, que, ao se entrecruzarem, defendem o comum propósito de dar voz à figura des/centrada da mulher, partiu-se a seguir para a análise do corpus específico: a autobiografia Histórias híbridas de uma senhora de respeito, estabelecendo paralelos com Memórias de uma moça bem-comportada, autobiografia de Simone de Beauvoir. A análise da primeira obra, respaldada na crítica literária feminista (brasileira, francesa e canadense), mostra que, marginalizada no âmbito da sociedade tradicional e oprimida por normas de comportamento arraigadas a valores androcêntricos, a mulher surge na ficção de Carmen da Silva na posição de sujeito. É a partir dos anos 1960 que ela goza de inovadora interpretação, notadamente por parte da autora rio-grandina, cujo discurso materializa-se em uma poética do feminino, ao mesmo tempo em que faz a crítica a fundamentos culturais seculares no que diz respeito à mulher. Esta postura oxigena o discurso em circulação e se reflete na sociedade brasileira como um todo.

A pesquisa que está na origem deste site, por sua natureza temática, pode ser considerada ainda como um dos veios dos estudos desenvolvidos anteriormente, não apenas no âmbito da Universidade Federal do Rio Grande - FURG, mas também fora da Instituição, publicados em forma de textos que podem ser repertoriados na Plataforma Lattes, vinculados aos seguintes projetos, entre outros: 1. “Questões de hibridação nas literaturas das Américas” (Responsável Zilá Bernd, UFRGS, 1995-2000), projeto que investigou a estética compósita das literaturas das Américas e deu origem à publicação Identidades e estéticas compósitas (Org. Zilá Bernd, 1999); 2. “Relações literárias interamericanas”, que deu origem às publicações: Glossário de conceitos fundadores do comparativismo interamericano (Org. Eurídice Figueiredo, UFF, 2005); Migrações teóricas, interlocuções culturais: estudos comparados Brasil/Canadá (Org. Sandra Regina Goulart Almeida e José dos Santos, UFMG, 2009), Habitar e representar a distância em textos literários canadenses e brasileiros (Maria Bernadette Porto e Arnaldo Rosa Vianna Neto, UFF, 2012) 3. “Americanidade e transferências culturais” (2002-2003)”, projeto desenvolvido na UFRGS sob a responsabilidade de Zilá Bernd, cujo embasamento sublinha as convergências que há na americanidade enquanto identidade continental e locus da enunciação, para revelar elementos comuns no que concerne às representações da mulher e sua situação na sociedade americana de modo geral e parcial.

Depois de contemplar inicial e especificamente os livros Setiembre (1957) - no qual Carmen da Silva exerce o papel de historiadora e testemunha dos acontecimentos da história argentina - e Histórias híbridas de uma senhora de respeito (1984), em que mistura suas experiências pessoais para abordar questões a respeito da narração em diálogo com histórias do dia a dia das mulheres -, ambos objeto de estudo em Dissertações de Mestrado defendidas na FURG, ampliou-se o estudo do corpus ficcional da autora rio-grandina, visando não apenas promover sua obra enquanto jornalista mas em sua totalidade, favorecendo assim seu reconhecimento e identificação com a terra onde nasceu. O Rio Grande de Carmen da Silva não é mais aquele do cheiro de cebola, "estreito demais"...; em 2013 é apontado como um dos municípios que mais cresceram no estado. Está cada vez mais claro que a cidade vive um momento único e conquista lugar de destaque, alterando o imaginário que perdurou por longa data. Com isso precisa-se também resgatar o patrimônio cultural, intelectual e artístico e os valores desta terra.

É pretensão ainda, ao colocar as informações e dados na mídia, estimular a contribuição e o envio de outras, as quais deverão ser encaminhadas para o endereço indicado para serem posteriormente aqui incorporadas. O interesse em re/ler Carmen da Silva, em investigar suas obras e publicações sobre elas possibilitará e/ou determinará renovadas perspectivas de estudo. Mais ampla análise e a catalogação da fortuna crítica e jornalística de/sobre Carmen da Silva continuarão em processamento para transferência/inserção neste suporte tecnológico digital. Em breve estarão à disposição no que se configura Acervo Virtual de Carmen da Silva, imortalizado agora na web, facilitando tanto a consulta, quanto a ampla circulação.

Em curto prazo, tão logo estejam digitalizados, os documentos impressos e outros recebidos por intermédio de Maria Pia Barreto, irmã de Carmen da Silva, serão liberados à consulta no Acervo Carmen da Silva, que se estabelecerá em local adequado e aqui será notificado.

Por último, a ela, in memoriam, e a Alice Barreto Del Fresno, pela confiança depositada, meu melhor agradecimento pela oportunidade de realizar este trabalho. Se hoje, por dever da memória, recordo Carmen da Silva, é porque fiz parte da juventude otimista dos anos 1960 que a lia e imaginava transformar a sociedade e a vida das mulheres. Meio século depois, muitos daqueles ideais foram alcançados, e isto porque mulheres como Carmen da Silva abriram espaços para mudanças efetivas de valores neste campo fértil, o feminismo, que conhece nos dias que correm muitas novas encarnações literárias e filosóficas.

Obrigada Carmen da Silva, pela tua luta! Lembrar-te aqui é elevar-te às nuvens virtuais, "virtuosa" que não querias ser; é cumprir com o dever da memória com quem enriqueceu nossa sociedade, é revelar tuas raízes, é fazer, enfim, teu passado transitar no presente.

* Endreço para correspondência: rua 14, 2417 - Bairro Jardim do Sol - Rio Grande - RS - Brasil.
cep: 96216-140.

 

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