Carmen da Silva

 
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Carmen da Silva: o paradoxo autobiográfico de uma mulher engajada, eternamente em fuga

Claudia Jane Duarte Maydana – Instituto de Letras – FURG.
Ensaio crítico conclusivo pela participação no projeto “Carmen da Silva, uma rio-grandina precursora do feminismo”, requisito necessário estabelecido pelo PPG-Letras – Mestrado em História da Literatura, nov. 2009

Contar a própria história é expor as raízes que o tempo fecundou e que a terra tratou de encobrir e preservar em memória viva, porém, intocada. Permitir o vislumbre desses alicerces fundacionais e fundamentais que definem quem realmente somos é ato de bravura e, em muitos casos, como no de Carmen da Silva, um ato de pura ousadia.

Assim somos convidados a testemunhar os recônditos da memória que nos oferece a autora na sua escrita de uma história, que também é história de uma escrita. Híbrida história – porque é também memória coletiva, representação plural de mundos distintos, línguas distintas, culturas distintas, todos a formar um painel de análise e crítica na mente de uma 'senhora de respeito'.

“Histórias híbridas de uma senhora de respeito” (1984) coloca Carmen da Silva no rol dos escritores que, ousada e corajosamente, escolheram trilhar os caminhos da escrita do 'eu'. É escrita ousada porque se atreve a fazer com que a memória viva, antes escondida, intocada , venha a tona, desafiando os recônditos de uma consciência da mulher que sabia-se rejeitada frente aos padrões de uma sociedade tradicional.

Descrever o 'eu', quase sempre, significa versar sobre o objeto de nossa perseguição. Com isso, quero afirmar que se escreve sobre um 'eu' que, na maioria das vezes, não foi ainda encontrado e que, se encontrado, tomou descaminhos diversos, sempre a nos dar a impressão de vários rumos tomados na vida e sempre a revelar-se em lacunas - nunca pleno. Escreve-se sobre um 'eu' que ainda incomoda, visto que ainda é chama a iluminar nossos objetivos – todos os dias a rotina nos coloca no encalço desse 'eu', e nisso está a nossa vitalidade.

Carmen da Silva vê a busca do 'eu' não como matéria escrita da produção egocêntrica da memória e sim como substrato coletivo, cujas múltiplas vozes rememoradas irão compor, juntamente à sua, o retrato mais ou menos fidedigno de uma época (à proporção dos limites humanos que doutrinam as lembranças).

Pretendo demonstrar que, enquanto trilha os caminhos da memória, deliberadamente avançando e recuando no tempo ao sabor fluídico da narrativa que se propõe como um bom 'bate papo', Carmen da Silva se autobiografa, tentando marcar sua presença neste mundo pelo descrever da sua trajetória envolvida em várias outras trajetórias. Nesse caminho da autobiografia é evidente a questão da 'fuga', que nada mais é do que tentativa de alcançar sua meta, um 'lugar ao sol', que se configura na própria busca identitária universal característica do 'humano'. Para alcançar a compreensão desta que é uma autobiografia de uma merecedora do título de 'mulheróloga' (atribuído por Stanislaw Ponte Preta), mulher engajada e paradoxalmente em constante processo de fuga, lançarei mão de alguns teóricos fundamentais pertencentes aos estudos literários de cunho pós-colonial e, primordialmente, aos estudos autobiográficos, focalizando as teorias de Philippe Lejeune.

Traçando um entendimento linear bastante objetivo e sucinto sobre o que foi a vida de Carmen da Silva através de sua obra autobiográfica, temos a história de uma mulher, filha de pais influentes e arraigados à tradição de uma cidade pequena, Rio Grande, no Rio Grande do Sul. Aos 23 anos ela parte para o Uruguai em busca de uma vida mais condizente com suas filosofias e lá trabalha em dois empregos, exercendo funções secretariais.  Alçando voo maior, muda-se para a Argentina aos 30, trabalhando na embaixada brasileira em Buenos Aires e escrevendo para alguns jornais e revistas, o que lhe abre caminhos para a escrita literária. Em 1962, já aos 43 anos e dezoito anos depois, retorna ao Brasil – porém, ao Rio de Janeiro, exercendo funções na redação de importante revista nacional. Sua referência temporal termina na obra no ano de 1983 (sua morte deu-se dois anos após, no ano de 1985) e é demarcada por uma passeata onde é apontada como a 'grande dama do feminismo brasileiro'. Entremeada a sua história, percebe-se o curso da própria História a montar o pano de fundo no imaginário de seus leitores. Parte da sua história é alicerçada e interpretada como 'realidade' na concatenação com outras personalidades pertencentes à História1: escritores famosos, críticos de arte, apresentadores de TV, personalidades ligadas ao universo cultural, em geral. 'Costurando' tudo isso, os relacionamentos amorosos de Carmen e dos que a cercam, os encontros para os debates culturais nos diversos lugares em que morou, as sensações prementes trazidas pelos acontecimentos e sentimentos que marcaram sua trajetória e que se desvelam através de sua escrita autobiográfica.

De maneira simplista, sua vida é percurso geográfico circular (inicia ao sul do Brasil, passa pelo 'charquito', que é o nome carinhoso que uruguaios e argentinos dão ao Rio da Prata, e volta ao Brasil pela região sudeste). No entanto, revela-se 'cidadã do mundo' em várias passagens onde narra suas pequenas viagens a negócios, férias, aventura.

Rompendo a linha do tempo, Carmen se utiliza de constantes flashbacks demonstrando que o percurso autobiográfico obedece com mais propriedade o ritmo da memória ditado pelas sensações do que pela cronologia dos fatos: “Desculpem esses vaivéns, eu pretendia contar uma história arrumadinha e correta mas é a tal coisa: Deus dispõe” (Hh: p. 60)

Carmen da Silva fez do mundo um espaço de livre trânsito, inconforme com a estagnação ou leis dos locais por onde passou. A estagnação que a perturbava era a dos ditos valores tradicionais e imutáveis; as leis, além das que regem politicamente os seres humanos, as estabelecidas pelo convívio social através dos tempos, leis de circunstância e convenção que regulavam o modus vivendi dos locais.  Nesse sentido, em sua tese de mestrado intitulada “Carmen da Silva: nos caminhos do autobiografismo de uma 'mulheróloga'”, Kelley Baptista Duarte nos diz que: “Embora viajante, Carmen da Silva encarnaria a simbologia da desertora. Em sua autobiografia fica clara a fuga aos compromissos natos: o casamento, a domesticidade e a maternidade” (2005, p. 62).

Rompendo o 'cordão umbilical', Carmen da Silva contraria as primeiras expectativas sociais no tocante às 'moças solteiras': dá início a uma Cruzada solitária em busca de sua identidade longe de suas origens.

Em seu livro “Os males da ausência ou a literatura do exílio”, Maria José de Queiroz introduz o tema do exílio utilizando-se de um pensamento ligado à tradição da terra natal:

Para Usbek, o persa criado por Montesquieu, o homem deve permanecer ali onde nasceu. Exposto a diferentes condições de vida, torna-se presa fácil da peste, sucumbe ao frio, ao calor, às intempéries e às enfermidades. Se arrancado ao habitat, nos tristes trópicos ou nas solidões dos búfalos, nos picos gelados da terra final, longe do sol ou à beira-mar, no vale úmido ou na montanha batida de ventos, ignora Alá e o seu profeta, debilita-se e morre (1998, p. 19).

Ironicamente, Carmen da Silva (caso tivesse deparado com a assertiva de Usbek) diria que a questão não se aplica ao gênero feminino, já que o persa estabelece seu pensamento dizendo 'o homem'; e nessa conjectura pode-se entender Carmen: um espírito livre que jamais se deixou barrar pelas circunstâncias sem intervir de modo zombeteiro. Enquanto Usbek prega 'raízes', Carmen proclama o 'abandono do berço': “Ser mulher numa cidade pequena nas décadas dos 30 e 40 era mais do que difícil, era dramático: havia que escolher entre a fuga, o martírio e o heroísmo. Confesso que escolhi a fuga” (Hh: p. 11); “O Rio Grande ficava estreito demais, eu o sentia apertando-me, estalando em todas as costuras” (Hh: p. 43).

Além da partida, percebe-se na obra que o mito do retorno à terra natal (como em Ulisses) não se concretiza inteiramente em Carmen da Silva. A certa altura da vida, é impelida à volta ao Brasil, porém não ao Rio Grande, por demais desprovido de cosmopolitismo para o gosto daquela 'senhora de respeito'. Carmen contradiz mais uma vez Maria José de Queiroz em suas pesquisas sobre os primórdios do exílio, na premissa de que “o afã do regresso é lei natural, a que todos se rendem: soldado, herói ou pastor, ao fim do combate ou após a jornada de trabalho” (1998, p. 45). Carmen está em maior consonância com Aimée Bolaños, em seu ensaio “História da literatura de signo Infinito? Poesia e diáspora”:

O desejo do lar não equivale ao desejo de voltar para o lugar de partida. Interessa de onde se partiu, mas também as formas de deslocamento e a projeção em comunidades imaginadas que se integram entre identidade e alteridade, em contato com outras práticas culturais. O sujeito diaspórico transforma-se na viagem transcultural, que pode ser uma síntese simbólica de um conjunto de experiências viajantes, transformador também dos espaços em que transita (2008, p. 3).

A questão do exílio pode ser entendida no percurso de Carmen da Silva mais como um 'exílio interior' do que aquele tipo de exílio imposto por razões externas:

[…] convém considerar, in extenso, as conotações consequentes, associadas à noção física – de separação da terra natal, seguida ou não de banimento definitivo a regiões distantes, mas promovida, sempre, por agentes externos, como, também, a noção íntima – de autodegredo do mundo, seguido de mergulho no Eu (QUEIROZ, 1998, p. 31).

Os caminhos da escrita autobiográfica de Carmen revelam o fenômeno da migração. Esse trânsito entre mundos, culturas e línguas distintas contribui de modo a formar o caráter híbrido e configurar um painel transcultural interessante para seu intelecto de escritora.

Sua primeira escolha é passo firme em direção a um universo aparentemente sob seu controle: o Uruguai. Seu ímpeto era o Rio de Janeiro, mas as circunstâncias para um 'começo de voo' de uma então 'moça de respeito' apontavam para o sul:

Por que o Uruguai? Simplesmente porque não me alcançava a audácia para tentar o Rio de Janeiro. O Rio era o desconhecido total, outro universo, outro clima, outros hábitos, cidade de perdição […]. Montevidéu eu já conhecia, tinha aí alguns primos, havia uma casa, herança de meu avô, da qual me tocava uma parte: o Uruguai era próximo, quase familiar, o salto que não cobria distâncias temerárias nem grandes riscos. Até do ponto de vista idiomático o espanhol é menos estranho para os ouvidos gaúchos do que o carioquês (Hh: p. 43).

Antonio Cornejo Polar descreve o que seria a epistemologia do 'migrar', que configura intersecção entre o 'aqui' e o 'lá', passado e presente:

[…] migrar é algo assim como ter nostalgia a partir de um presente que é ou deveria ser pleno das muitas instâncias e estâncias que se deixaram lá e então, um lá e um então que logo se descobre que são o aqui da memória insone mas fragmentada, e o agora que tanto corre como se aprofunda, verticalmente, num tempo espesso que acumula sem sintetizar as experiências do ontem e dos espaços que se deixaram atrás e que continuam perturbando com raiva ou com ternura (2000, p. 130).

O processo de adaptação não foi diferente para Carmen da Silva, a despeito de todo seu desprendimento e coragem. O impacto do contato com as novas culturas é relatado com a memória viva do estranhamento:

Depois do Uruguai – o Uruguai dos bons tempos, repito -, a adaptação na Argentina, apesar de René, foi difícil. Eu não estava preparada para nada daquilo: o movimento vertiginoso das ruas, os táxis escassíssimos, o olhar arrogante e perfurante dos portenhos, seus “mamita/preciosa”, sua atitude paranoica ao telefone, onde não se identificam a nenhum preço, respondendo a um “quem fala?” com um “com quem falar?” e, em caso de engano ou dúvida, um “pero con qué número quiere hablar?”, sem jamais confessar seu próprio nome ou número, o que ocasiona uma irritante perda de tempo. Pensando bem, nada surpreendente: as ditaduras se nutrem de paranoia, geram paranoia (Hh: p. 74).

E após, aculturada em relação ao Brasil, a adaptação volta a ser dolorosa:

[…] Continuava desambientada com o calor, a linguagem, os costumes, os vínculos que pareciam carecer de espessura, densidade, peso. Só em raras oportunidades e com raras pessoas eu conseguia reproduzir o tipo de comunicação profunda que mantivera com meus amigos de Buenos Aires: a maioria das vezes só encontrava inconsistência e ruído. […] Por momentos o Rio de Janeiro me parecia habitado de elfos, gnomos, duendes, seres elusivos, fogos-fátuos, bolhas de sabão” (Hh: p. 136).

O híbrido é assumido na obra desde o seu título que, de acordo com Nubia Hanciau, sugere dupla interpretação:

Para Carmen da Silva, no seu último livro, Histórias híbridas de uma senhora de respeito (1984), o híbrido do título sugere uma visão dicotômica; de um lado inscrita na miscigenação e na mistura de uma narrativa autobiográfica transgressora, que engloba os múltiplos problemas, as contradições e a perplexidade da condição feminina da mulher brasileira; do outro, na acepção que adota Zilá Bernd, o híbrido é entendido como o ultrapassar das fronteiras espaciais e culturais, representadas pela mudança da autora para Montevidéu e Buenos Aires, e ainda pela ousadia em derrubar barreiras, encorajando a mulher a assumir-se como pessoa e a defender sua autonomia (2003, p. 115).

A hibridação é incorporada como fator constitutivo da personalidade de Carmen: “A gaúcha meio argentina deslumbrada com o céu [...]” (Hh: p. 114). No entanto, em certos momentos, a angústia de pertencer a ambos os espaços, 'aqui' e 'lá', é notória. Essa angústia é manifestada no teor da diferença, na consciência de pertencer ao espaço interseccional, ao entre-lugar cultural: “Gaúcha, eu ficara sempre a meio caminho entre a constipada contenção do portenho e os derrames tropicais […] (Hh: p. 115)”.

Ainda lançando mão das análises de Antonio Cornejo Polar em suas considerações sobre o processo de migração, é importante justificar que a mesma tem sentido forte, já que

[…] a todos os distúrbios previsíveis junta-se o que nestas circunstâncias é fundamental: a passagem de uma cultura a outra, em mais de um sentido contrapostas, cujo signo maior é um bilinguismo que […] produz uma aguda ansiedade pelo confuso hibridismo de lealdades e pragmatismos (2000, p. 131).

Carmen da Silva bem sabia que seu destino de migrante, “sujeito desagregado, difuso e heterogêneo” nas palavras de Cornejo Polar, trilharia sua escrita autobiográfica uma vez que “o migrante nunca deixa de o ser totalmente, ainda que se instale definitivamente em um espaço e o modifique à sua imagem e semelhança, porque sempre terá atrás de si sua experiência fundadora […]” (POLAR, 2000, p. 136).

Cornejo Polar cita José María Arguedas, escritor e antropólogo peruano, criou o termo 'forasteirismo' e fez dessa temática uma recorrente em seus textos. Explicou o forasteirismo como “desassossegada experiência de ser homem de vários mundos, mas afinal de nenhum, e de existir sempre – desconcertado – em terra alheia” (2000, p. 129).

Carmen da Silva revela-se, em sua obra, como a verdadeira 'forasteira' e traz o sentimento do 'ser estrangeira' para sua autobiografia. Grande vantagem para o mundo da literatura, pois, de acordo ainda com Aimée Bolaños “a arte e a literatura expressam uma experiência radical de alteridade na falta de si, na descoberta do estrangeiro que está em cada qual” (2008, p. 11). Nestas passagens, a velha máxima: 'uma estranha em mundo estranho':

Politicamente, esses amigos, os próprios acontecimentos cotidianos e, sobretudo, a psicanálise iam fazendo minha cabeça, arrancando-me dos olhos as teias de aranha, levando-me aos poucos a admitir que o “mundo, mundo, vasto mundo” lá fora não obedecia às mesmas leis que haviam regido o cálido ninho de minha infância (Hh: p. 106).

Rompidos os últimos – ou, pelo menos, os penúltimos – elos com a Carmenzinha-do-Rio-Grande, começou a pesar-me a condição de estrangeira com todas as restrições que me impunha. Eu não podia assinar manifestos, participar de passeatas, malhar e desancar publicamente o que quer que fosse ou mesmo aprovar com demasiada veemência: a todo instante tinha de sofrear meu potro (Hh: p. 108).

Em dia de eleição, eu acompanhava os amigos até quase a boca da urna, pegava os conhecidos vacilantes e ia tentando fazer sua cabeça até o último minuto – e depois me retirava com o rabo entre as pernas, remoendo a mágoa da exclusão (Hh: p. 108).

Já no Brasil, sentia-se 'forasteira' em terras nacionais. Os aspectos divergentes aqui são relacionados às convenções sociais: “O aspecto mais desolador do panorama eram os contatos humanos: não tardei em perceber a falta de consistência dos queridinha e dos meu-bem, o caráter superficial das relações” (Hh: p. 115).

Comprova-se ainda a divergência com relação à inconsistência das palavras quando realiza uma seleção de trabalho para um cargo numa revista, mas, na verdade, é contratada para desempenhar diferentes funções:

Logo de saída descobri que o pomposo título (relações públicas) designava simplesmente uma vendedora de espaço publicitário: mais uma mentirinha carioca. Eu não estava apenas readquirindo prática no meu português oxidado: estava, sobretudo, aprendendo uma nova linguagem em que as palavras não tinham o valor que eu sempre lhes atribuíra. Senti-me diferente, recuperei um senso de singularidade, mas já não o via como um dom: ao contrário, isolava-me, pesava (Hh: p. 116-117).

O processo de 'fuga' que Carmen da Silva empenhou em relação a vários lugares não deve ser encarado como qualificador pejorativo e sim como 'busca'. Essa busca identitária presente em tantos textos da mítica clássica quanto moderna, caracterizando-se pelo natural  quê de desconforto que nos impele a outros caminhos. A busca é processo e, como tal, está sempre em transformação.

A identidade é realmente algo formado, ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento. Existe sempre algo “imaginário” ou fantasiado sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, está sempre “em processo”, sempre “sendo formada” (HALL, 2002, p. 38).

Uma das formas identitárias mais patentes é o próprio nome. Carmen da Silva revela em sua autobiografia o desconforto pela denominação atribuída a ela enquanto vivia em Rio Grande: “a Carmenzinha do doutor Pio”.

A publicação do romance e a repercussão que ele teve deram-me, por fim, algo a que sempre aspirava: o direito a meu próprio nome. No Rio Grande, eu sempre fora a “Carmenzinha do doutor Pio” e, por mais que me orgulhasse de meu pai, irritava-me a falta de identidade própria (Hh: p. 99).

Stuart Hall afirma sobre a identidade cultural que, como a formação da identidade é sempre processo em desenvolvimento, a “identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia”; e que “se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda estória sobre nós mesmos ou uma confortadora 'narrativa do eu'” (2002, p. 13).

A narrativa de Histórias híbridas... em nada lembra uma “confortadora narrativa do eu”. A impressão da leitura é justamente o contrário: Carmen brinca com o calendário, usa de fragmentação justamente para demonstrar o quanto ela mesma é 'fragmento', é construção – enquanto mulher, sujeito social e narradora. Hall defende a linha da fragmentação do sujeito: “O sujeito previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não-resolvidas” (2002, p. 12).

As constantes reformulações, reconstruções na vida de Carmen da Silva, bem mais do que representadas na virtualidade da mente, eram igualmente concretizadas no limiar espacial, contribuindo assim para a formação de sua identidade. É na Argentina que la sente a necessidade de um novo rumo:

[…] tudo quanto eu pensara e tramara e programara até então, para o mundo e para mim, estava errado pela base, havia que jogar os velhos esquemas no lixo e reformular absolutamente tudo a partir de zero, inaugurar um caminho diferente, sem ter a menor ideia de onde ele me conduziria (Hh: p. 107).

Do Rio de Janeiro, cansada das falsas convenções sociais, parte para Niterói com intenção de permanecer por três meses. No entanto, este foi o refúgio possível pelo período de dez anos:

[…] eu estava em crise de identidade, já não sabia quem era: nem a Carmenzinha-do-Rio-Grande nem Carmen da Silva nem qualquer pessoa que merecesse um nome: apenas um robô que abria a porta, sorria uma hospitalidade de robô, dizia: “OI, que bom que você veio! […] Até o dia em que simplesmente afrouxei: esgotou-se a corda, a mola rebentou, resolvi sair correndo atrás de mim mesma antes de me perder de todo. Pus algumas roupas numa valise, enchi três malas de livros, peguei dois copos, pratos e talheres – exatamente dois, o número simbolizando minha recusa de sociabilidade – atravessei a baía e fui refugiar-me por três meses em Niterói (Hh: p. 133-134).

Dez anos de refúgio, findo os quais, retorna ao Rio:

Dez anos mais tarde eu voltava ao Rio […]. Definitivamente farta, achando Niterói um atraso de vida: perdido seu bucolismo inicial, a cidade só leva sobre o Rio Grande uma vantagem: não cheira a cebola. Nichteroy-sur-mer cheira é a fritura de bacalhau e esgotos à flor da terra (Hh: p. 134).

Acostumada a mudanças internas e externas, Carmen da Silva torna-se o que Stuart Hall define como “uma celebração móvel”, ou seja, a identidade do sujeito pós-moderno “formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam” (2002, p. 13).

A narrativa autobiográfica de Carmen, apesar de revelar esse desconforto que a faz migrar de um lugar ao outro em busca de si mesma, não possui teor pessimista ou mesmo derrotista; bem ao contrário, estimula a busca enquanto desvenda casos e acasos do seu viver, assim como daqueles que com ela convivem. Explicitamente a autora revela um único lugar de conforto pleno, onde poderia ser ela mesma, corpo e verbo: a SADE (Sociedade Argentina de Escritores):

Havia em Buenos Aires um único lugar onde eu não sofria as limitações da extraterritorialidade: a Sociedade Argentina de Escritores. A SADE era minha pátria, aí eu me esbaldava à vontade, soltava o verbo inflamado nas reuniões, congressos, simpósios e assembléias, votava e varava a noite esperando o resultado do escrutínio […]. Na SADE só lembravam que eu era estrangeira para emprestar-me galas folclóricas: queriam que eu cantasse, dançasse, rebolasse, fizesse “unos pasitos” de samba. […] Eu era feliz em Buenos Aires” (Hh: p. 108-109).

Nesse sentido do lugar de conforto, a opção pelo 'terceiro caminho' revela-se alternativa, como constata Nubia Hanciau: “Uma terceira margem, um caminho do meio, consiste nesses procedimentos de deslocamento, de nomadismo, em que o projeto identitário possa nascer da tensão entre o apelo de enraizamento e a tentação da errância” (2003, p. 5).

Embora tenha constatado a existência de certo conforto nesse entre-lugar, quando da renúncia de Jânio Quadros e os eventos subsequentes no Brasil, Carmen sente a necessidade de retornar. Havia, em princípio, certa inquietação quanto ao seu papel dentro dessa sociedade estrangeira e após, pelo cerceamento de participação efetiva como cidadã argentina, o retorno começa a se fazer premente:

Eu começava a sentir certa culpa de viver como que entre parênteses, sem qualquer compromisso visceral com o país que me abrigava. […] E foi assim que comecei a acalentar a ideia de voltar para o Brasil. […] Evidentemente, não cogitava de ir para o Rio Grande: em meus piores períodos psicanalíticos, o pesadelo que me assaltava era de ter retornado à minha cidade natal de-fi-ni-ti-va-men-te […]” (Hh: p. 109).

Tal necessidade pode ser justificada por Hall: “As pessoas não são apenas cidadãos/ãs legais de uma nação; elas participam da ideia da nação (grifo do autor) tal como representada em sua cultura nacional” (2002, p. 49). A necessidade de Carmen da Silva encerra um paradoxo: o desejo da inclusão versus o desejo do desvencilhamento: ao mesmo tempo em que se quer voz ativa, com direito a participação e intervenção nos lugares por onde passou, algo a impele a ir além, ir em frente, desvencilhar-se do que possa representar amarras, compromissos.

A esta altura, cabe perguntar: o quanto a Carmen da Silva de Histórias híbridas... possui de “Carmen da Silva”, sujeito da  História? Em que situações tenho a artífice/narradora? Quando disponho da verdade, ou melhor dizendo, 'o quanto' disponho de verdade em sua obra?

Tal fronteira tênue vem sendo bastante discutida pelos estudiosos da teoria literária. Desde de Fernando Pessoa talvez, 'o poeta é um fingidor', essa fronteira vem perturbando aqueles que se preocupam com aspectos taxonômicos. A hibridação de gêneros contribui para o fortalecimento dessa fronteira de modo que, com o pensamento crítico da atual circunstância literária, não nos é possível compartimentar ficção e realidade como dois blocos unos e independentes. Roland Barthes defende a ideia de que “A escritura é a destruição de toda voz, de toda origem. A escritura é esse neutro, esse composto, esse oblíquo pelo qual foge o nosso sujeito, o branco-e-preto em que vem se perder toda identidade, a começar pela do corpo que escreve” (1988, p. 57). Diz ainda em seu texto “A morte do autor” que quando não possuímos indícios da sua origem, “o autor entra na sua própria morte, e a escritura começa” (p. 58); e que “Dar ao texto um Autor é impor-lhe um travão, é provê-lo de um significado último, é fechar a escritura” (p. 63).

Em se tratando do texto autobiográfico, essa inquietação promovida pela atenuação de fronteiras também vai tomar lugar junto ao discurso dos teóricos envolvidos na questão. Philippe Lejeune desenvolveu inúmeras pesquisas acerca da teoria do gênero autobiográfico em três tempos, digamos assim: em 1975, O pacto autobiográfico; em 1986, O pacto autobiográfico (bis) e em 2001, O pacto autobiográfico, 25 anos depois. A cada novo insight a respeito do pacto, Lejeune adota uma postura desconstrutivista própria do momento pós-estruturalista que perpassava sua escrita, a ponto de expor, sem reservas e sem egos, seus desenganos ao conceder uma abordagem por demais conceitual, a ponto de assumir um posicionamento que quase abomina o excesso de teorização e conceitos. Justifica essa 'nova ordem' estabelecendo a importância de ser evitada a “redução mecanicista” e fazendo entender que, em literatura, não existem elementos fixos: “Não sou mais um agrimensor satisfeito por ter terminado seu trabalho, mas um pesquisador que tem consciência de estar apenas começando e que diz: “continua no próximo capítulo” (2008, p. 79); “Meu perfil de pesquisador mudou desde 1971: 15 anos depois, eu não era mais normativo, nem teórico” 2008, (p. 84).

No enfoque deste trabalho, a opção de análise fez-se pelo método menos hermético, logo, as considerações que irão auxiliar no processo serão as do Pacto (bis) e do Pacto, 25 anos depois, contidos na obra do autor O pacto autobiográfico: de Rousseau à Internet, de 2008.

Retomando a questão da tênue fronteira entre os gêneros e, maximizando-a para o entendimento da tênue fronteira entre ficção e realidade, Lejeune coloca a questão no cerne do capítulo sobre “O Estilo”:

E quem pode afirmar onde termina, dependendo da época e do tipo de leitor, a transparência e a verossimilhança, e onde começa a ficção?”[…] Esse ponto continua sendo, aliás, matéria de litígio: o paradoxo da autobiografia literária, seu jogo duplo essencial, é pretender ser ao mesmo tempo um discurso verídico e uma obra de arte (2008, p. 61).

Mais adiante, no capítulo “A ideologia autobiográfica”, Lejeune se posiciona de modo a crer na verdade do autor e também na sua capacidade de ficcionalizar em torno do real. Quando diz que acredita na possibilidade do comprometimento do autor com a verdade confessa-se um “ingênuo”, mas não pode deixar de crer na “transparência da linguagem e na existência do sujeito pleno que se exprime através dela” (p. 65). Porém, revela que é possível o “anti-Pacto por excelência” - após ter lido a obra de 1975, “Roland Barthes por Roland Barthes”, dando a concluir que o melhor dos dois mundos (realidade e ficção) pode, sim, coexistir de modo a compactuar um espaço no discurso autobiográfico: “Dizer a verdade sobre si, se constituir em sujeito pleno, trata-se de um imaginário. Mas, por mais que a autobiografia seja impossível, isso não a impede de existir” (p. 66).

Ultrapassado o hermetismo inicial com relação à questão do gênero e da realidade versus ficção, cabe analisar o que de conceitual ficou do termo “autobiografia”. No “pacto (bis)”, Lejeune deixa claro que, num sentido mais amplo “qualquer texto em que o autor parece expressar sua vida ou seus sentimentos, quaisquer que sejam a forma do texto e o contrato proposto por ele” pode designar uma autobiografia (p. 53). A seguir o teórico vai chegar a um reconhecimento mais 'matemático', por assim dizer, mas que, de acordo com ele mesmo, suscitará ambiguidades: “autobiografia = autenticidade e profundidade do vivido” (p. 55). Vinte e cinco anos depois, na revisitação do Pacto autobiográfico, evitando uma já ultrapassada “tendência ao nominalismo”, diz simplesmente que “Definir significa excluir, quando as distinções estão ligadas a um ato de escolha que, mesmo que afirmemos o contrário, implica uma hierarquia de valores” (p. 108).

Entendo, por fim, que Lejeune entrega conceitos à dúvida e prefere deixar a questão na nebulosidade. No entanto, a desconstrução que elaborou essa escolha da dúvida elegeu uma 'dúvida que é frutífera', no sentido de ampliar significações e possibilidades. Essa é a 'dúvida positiva' que, ao invés do conceitual estanque, mostrar-se-á aberta às discussões e novos enfoques.

A contribuição de Philippe Lejeune para os estudos autobiográficos permite-nos mais propriedade ao dizer que 'sim', Carmen da Silva se autobiografa. Elege o seu corpus real e, sobre ele, utiliza seu talento de artífice da literatura de modo a envolver os leitores nesse espaço que também é ficcional, porquanto se inventa.

A consideração do leitor é relevante para os estudos da escrita do eu. Barthes, já em 1968, aponta-nos sua importância, dizendo: “o nascimento do leitor deve pagar-se com a morte do Autor” (p. 64). Explicita ainda que

[…] um texto é feito de escrituras múltiplas, oriundas de várias culturas e que entram umas com as outras em diálogo, em paródia, em contestação; mas há um lugar onde essa multiplicidade se reúne, e esse lugar não é o autor, como se disse até o presente, é o leitor: o leitor é o espaço mesmo onde se inscrevem, sem que nenhuma se perca, todas as citações de que é feita uma escritura; a unidade do texto não está em sua origem, mas no seu destino (1988, p. 64).

Igualmente, ao final dos anos 60, os teóricos Wolfgang Iser e Hans Robert Jauss defendem estudos relativos ao campo das teorias orientadas com função no leitor. No livro “A Reader's Guide to Contemporary Literary Theory”, Raman Selden explica o princípio das ideias de Iser:

A ênfase de Iser é fundamentalmente fenomenológica: a experiência de leitura do leitor está no centro do processo literário. Resolvendo as contradições entre os vários pontos de vista os quais emergem do texto ou preenchendo as 'lacunas' entre pontos de vista de várias maneiras, os leitores levam o texto para dentro de suas consciências e fazem dele sua própria experiência (1989, p. 121)2.

O prisma do leitor é também enfatizado por Lejeune no “Pacto, bis”. Caracterizará 'Pacto Autobiográfico' como sendo “a recorrência obstinada de certo tipo de discurso dirigido ao leitor” (p. 72). Esta nomenclatura irá assumir outras denominações tais como 'contrato autobiográfico' e 'pacto de verdade'; 'autobiografia', por sua vez, também passará a ser conhecida como 'escritas do eu' ou 'escritas de si' (p. 82).

Lejeune diz do 'envolvimento no processo' por parte do leitor, que acontece de forma mais representativa quando está implicado o tipo de narrativa próprio do discurso autobiográfico:

[…] no pacto autobiográfico, como, aliás, em qualquer “contrato de leitura”, há uma simples proposta que só envolve o autor: o leitor fica livre para ler ou não e, sobretudo, para ler como quiser. Isso é verdade. Mas se decidir ler, deverá levar em conta essa proposta, mesmo que seja para negligenciá-la ou contestá-la, pois entrou em um campo magnético cujas linhas de força vão orientar sua reação. Quando você lê uma autobiografia, não se deixa simplesmente levar pelo texto como no caso de um contrato de ficção ou de uma leitura simplesmente documentária, você se envolve no processo: alguém pede para ser amado, para ser julgado, e é você quem deverá fazê-lo (p. 73).

A consideração de uma Estética da Recepção como fator de relevância para os estudos autobiográficos tende a consolidar a questão do pacto narrativo e do aqui estudado pacto autobiográfico. No pacto narrativo, uma vez firmado, só o que temos no texto é a palavra e, através dela, somos impelidos ou não a continuar a narração. Aceitar a continuidade do ato de leitura é firmar esse pacto, cujo único elemento real é a 'palavra'. O pacto autobiográfico representa voto maior de confiança naquela 'verdade' estabelecida pelo autor, pois, uma vez que o autor se identifica através do próprio nome, a tendência do receptor é crer em tudo o que ali vai se estabelecer em termos de narrativa mas não somente com peso de verossimilhança, mas sim com peso de 'realidade'.

O 'convite' feito por Carmen da Silva à leitura de sua autobiografia não é esquecido no decorrer da narrativa, face às inúmeras reiterações de respeito à presença do leitor e os inúmeros 'chamamentos' no intuito de cativar-lhes a atenção, a empatia, a simpatia: “[…] eu iniciava minha carreirinha de escritora. […] e, agora, estas historias híbridas que pelo menos tu, ó leitor, que chegaste até aqui, estás lendo, bendito sejas – e que Deus não te castigue com excessiva severidade” (Hh: p. 85).

Carmen coloca-se repetidas vezes sob o crivo de julgamento de seu leitor. Reiterando o que foi anteriormente citado, Lejeune nos diz que na narrativa autobiográfica “alguém pede para ser amado, para ser julgado [...]” (p. 73). Em certos momentos, percebe-se que Carmen se coloca na defensiva, justificando seus pensamentos de modo a não cair em incompreensão: “Dirão que critico os homens mas me dedicava a imitá-los. Nada disso: eu só queria fugir ao lugar-comum […]” (Hh: p. 47). Em outros, necessita de aprovação (embora generalize com a palavra “mulher”, está falando de si:

Mulher nasce e vive sobre o fio da navalha. “Foi feita” para conformar-se à soberana vontade masculina. Mas como esta é um tanto caprichosa, com gradações que vão da santa à prostituta, do cordeirinho à víbora, ela nunca sabe a que se ater e precisa merecer aprovação a cada instante para obter algum senso de legitimidade (Hh: p. 178)

Em outros momentos ainda, como que num processo de adivinhação dos pensamentos que perpassam a mente do leitor no ato da leitura, age respondendo às perguntas internas deste: “Como cheguei lá? Como chegara a todos os lados: tentando” (Hh: p. 119); “Daí, qual era a minha? Percebi que havia perdido o bonde na ida e na volta” (Hh: p. 137).

Respondendo a um apelo imposto pela 'mulheróloga' que trazia em si, Carmen da Silva não consegue evitar, por vezes, a referência explícita à figura da “leitora”, essa mulher que, no ato da leitura, quer saciar sua curiosidade no desvendar dos segredos da também mulher-autora: “Enfim, irmãzinha, case e depois você me conta” (Hh: p. 72).

Lançando mão de certa impessoalidade, descreve a reação de possíveis leitores ante sua obra. A caracterização revela o pensamento de Carmen no tocante ao aspecto “gênero”:

As experiências que narro não surpreenderão mulher nenhuma, elas apenas vão sorrir torcido, pensando: ah, ninguém escapa, nem mesmo uma mulheróloga registrada e confirmada! A surpresa ficará por conta dos cavalheiros, comodamente plantados na suposição de que essas situações são excepcionais. Não sabem da missa a metade […]” (Hh: p. 151-152).

O leitor, conduzido para o interior do “campo magnético” (nas palavras de Lejeune) imposto pelo voto de confiança na exposição narrativa, tem inúmeras “provas” da veracidade da autobiografia de Carmen. Estudos biográficos feitos por Ana Rita Fonteles Duarte permitem-nos encontrar os 'negativos' dentro do imenso painel fotográfico que Carmen da Silva nos convida a vislumbrar.

Um dos mais importantes aspectos relacionados à sua vida, sem dúvidas, é a questão do feminismo. Desde muito jovem, Carmen já demonstrava rebeldia no cumprimento de certas contingências sociais impostas à sua época: “Nenhum toque de genialidade em mim: apenas uma certa dose de inconformismo, rebeldia, tendência a nadar contra a corrente. Mas justamente isso é o que se precisa controlar: mulher rebelde é pior que a matemática de Ionesco: não leva somente ao crime, leva à subversão” (Hh: p. 64). Ao longo da vida, ela tem contato com as obras da literatura feminista, cujo conhecimento é revelado em: “”Toda a literatura feminina é supérflua’, começava ele, declaração essa que mandava para as cucuias de Safo a Mansfield, passando por Ávila, Alcoforado, Austen, Woolf, Beauvoir, Ibarburu e até Mistral, com todo seu prêmio Nobel” (Hh: p. 93). Carmen deve ter supostamente lido Um teto todo seu, de Virgínia Woolf. A referência não é explícita, no entanto, quando refere ao espaço de cada um, ao direito a uma identidade própria, é evidente o intertexto:

Um espaço para ser, mas não um espaço delimitado pela imposição alheia, e sim o que cada uma é capaz de criar para si: o direito à identidade. Gosto de ver a reação de Momô quando Fofoquinha faz travessuras, explora lugares perigosos, arrisca as alturas mais vertiginosas, derruba livros da estante, cruza os corredores em carreira desabalada, desfraldando como bandeira o rabo eriçado: ele não é disso, fica olhando arregalado de surpresa, espanto, admiração – mas não interfere, não tenta puxar para baixo, moderar, não asfixia, não compete: Momô vive e deixa Fofoquinha viver (Hh: p. 164).

“Momô” e “Fofoquinha” são pura prosopopeia, uma vez que representam as ações que Carmen tem a esperança de um dia ver no homem e na mulher – ações que representam o respeito no compartilhar espaços. Raman Selden, ao abordar o teor feminista de Virgínia Woolf assim complementa: “Ela queria que sua feminilidade fosse inconsciente de modo que ela pudesse 'escapar da confrontação com o ser fêmea ou ser macho' (Um teto todo seu) (p. 142).3

Um outro acontecimento relatado no livro e que deve ter sido entendido por Carmen à luz de Virgínia Woolf é o episódio em que lança o livro Septiembre, quando jornalistas argentinos consideraram que deveria ser um homem escrevendo sob pseudônimo feminino:

[…] quando escrevi um livro sem pieguices de linguagem ou de conteúdo, ninguém ainda conhecia meu nome – eu jamais assinara até então uma única linha em qualquer publicação argentina – e, a princípio, todo o mundo supôs que eu fosse homem: “Carmen da Silva, cuyo pseudónimo debe ocultar uma pluma masculina...”, escrevia La Razón. […] O romancista Bernardo Verbitsky, de Notícias Gráficas, pediu a Goyanarte que marcasse entrevista com o “senhor” Carmen da Silva (Hh: p. 93).

Virgínia Woolf “acreditava que as mulheres sempre tinham encarado obstáculos sociais e econômicos em suas ambições literárias” (SELDEN, p. 142)4 e que “quando as mulheres finalmente alcançassem igualdade social e econômica em relação aos homens, não haveria nada para evitar que desenvolvessem seus talentos artísticos livremente” (SELDEN, p. 143)5.

Carmen da Silva encontrou na transgressão de gênero uma maneira efetiva de, mais uma vez, mostrar-se “além fronteiras”. A certa altura sua narrativa de vida ultrapassa os limites conveniados pelo sexo e transita, em atitudes e aparência, pelo mundo masculino. Justifica esse fato na própria obra, dizendo, ironicamente “Todas as virtudes são no masculino” (Hh: p.92).

De certa maneira, é com o objetivo de demonstrar a sua força como mulher 'boa de briga' que Carmen coloca-se em certos contextos 'travestida' em homem: “[…] eu queria chamar a atenção mas com honra, se é que me faço entender: nada de desprezíveis recursos inerentes à minha desvalorizada condição feminina – ah, que mulher não teve sua fase de machismo?” (Hh: p. 46). À procura do fechamento de bons negócios para René ela revela sua força ao atuar como 'homem de negócios', bem sucedida no intento. Nessa empreitada, o paradoxo: “Eu virara homem de negócios porque se tratava dos negócios de René. E aqui vem a grande incongruência, a ironia maior: eu virava homem porque era o que de mais “feminino”, no sentido piegas e tradicional, eu podia fazer por amor a ele” (Hh: p. 59). Obviamente, bem mais do que 'por amor' a um homem essa opção transgressora mostra-se viável. Na verdade, eternamente militante contra a condição subjugada da mulher, Carmen da Silva utiliza-se dessa artimanha para ir em frente, conquistando espaços antes nunca dados ao chamado sexo frágil: “O cúmulo: a gente começar se imaginando joia e flor e acabar virando King-Kong de saias” (Hh: p. 73).

A força da mulher em Carmen teve por êxito 'livrar-se' até das mais poderosas amarras imputadas ao sexo feminino: os laços do sagrado matrimônio. É claro que viveu amores, viveu-os por tempo até superior a muitos casamentos ditos 'convencionais'; no entanto, a vida partilhada com um homem sempre foi encarada com o cuidado de preservar-se com certa liberdade, sem obediência a um código moral imposto pelas circunstâncias sociais.

Enquanto 'todas' as suas contemporâneas escolhiam a proteção dos laços matrimoniais, Carmen suspeitava: “Páfate, me disse eu. Páfate, Carmen. Dentro de mim soavam campainhas de alerta, eu começava a compreender que um destino de joia e flor tem um preço: a joia é trancada no cofre, a orquídea fica encerrada na estufa: segurança é cadeia” (Hh: p. 69).

Vamos tirar o chapéu à heroína que eu fui em pleno 1945, quando raríssimas mulheres concebiam outro objetivo na vida a não ser um destino de joia e flor, melhor refúgio que uma gaiola de ouro: enfrentei a parada. Em nome de uma abstração, renunciei a um homem de carne e osso, rejeitei os dons oferecidos por um deus benevolente – e me escolhi (Hh: p. 72)

Junto com o resplendor da chama, um lugar-comum cruzou-me o cérebro como um raio: a gaiola de ouro. Potinho d'água, alpiste, alface fresca, pão-de-ló, uma alisadinha na plumagem: piu piu passarinho. Um universo de trinta por cinquenta centímetros. Seguro, aconchegante. Mas nunca a alegria de um trino livre, um frêmito de asas na embriaguez do voo (Hh: p. 70).

E, graças à 'embriaguez dos voos' que realizou, conforme a citação anterior, ela teve a chance de estabelecer contato com figuras importantes e interessantes do meio cultural latino-americano, o que lhe rendeu, além dos agradáveis encontros para debates e coquetéis, o ímpeto para uma vida influenciada pela palavra escrita. Essas relações com personalidades do mundo referencial, as quais os meios de comprovação documental pode-se lançar mão facilmente, corroboram o universo de verdade que Carmen teceu para desenvolver sua poética: “Syria Poletti, Susana Thénon, Abelardo Arias: numa época, toda a literatura jovem e não tão jovem da Argentina vinha compartilhar meu vinho, inclusive Paco Urondo, prêmio Casa das Américas […]” (Hh: p. 105).

A conversa com o intertexto concede a noção das leituras realizadas por Carmen. Algumas referências intertextuais são bastante emblemáticas, pois já revelam o espírito inquisidor em relação ao feminismo premente: “Ri amargo com o Complexo de Cinderela, de Colette Dowling” (Hh: p. 146). Outras, mais sutis, demonstram a leitura, embora ela não o diga: “[...] também a mim, como a Drummond de Andrade, alguém me autorizou a ser “gauche” na vida (Hh: p. 120); “E agora, José, como é que a gente fica?” (Hh: p. 165).  A formação clássica é evidente em várias passagens, onde se destaca: “[...] senti como se meu estômago fosse Herculano e Pompéia recebendo o bombardeio de pedra e lava do Vesúvio desencadeado” (Hh: p. 127); “Entupiram-nos a cabeça de Shakespeare, Petrarca, Dante, Goethe, recheando os intervalos com merengue de Cole Porter” (Hh: p. 164).

Carmen assume o próprio nome e não nega as origens. 'Abre o baú' e expõe peripécias à luz, aparentemente sem reservas e sem deixar pontos obscuros. Todavia, quando recorre à autocensura, por vezes, evidencia tendência à despersonificação, como se não admitisse tamanho erro dada a circunstância ou se evitasse o confronto com algo que não lhe agrada: “[...] ah, a filha de minha mãe fazendo bobagens. […] Eis a filha de minha mãe metida na situação feita de medida para o equívoco: o drinque às quatro e meia da manhã […] (Hh: p. 158); “Já não jovem, o único que a salva de incorrer na piedade hipócrita […] que os homens afetam nutrir pela jogada-fora, é o aspecto inequívoco de milionária extravagante e trota-mundos. Mas aí ela tem uma trabalheira para livrar-se dos gigolôs e caça-dotes” (grifo nosso) (Hh: p. 166).

Philippe Lejeune afirma no seu O pacto autobiográfico (bis) (1986) o que nos leva a refletir sobre as condições finais da autobiografia de Carmen da Silva: “todo homem traz em si uma espécie de rascunho, perpetuamente remanejado, da narrativa de sua vida” (p. 67). Ora, podemos entender que rascunho implica processo; a escrita do eu é processo e, por isso, a história de Carmen da Silva não apresenta fechamento – não tanto porque a autora ainda está no curso de sua vida à época (mas também por isso) e sim porque o processo de construção do eu ainda vive. Uma autobiografia, naturalmente, propõe-se como rascunho, uma vez que a morte do processo de construção pode significar perda ainda maior do que a morte do próprio sujeito, literariamente falando, é claro.

No capítulo sete, Carmen revela boa saúde:

Não me sinto ainda próxima da morte (quem jamais se sente, estando com saúde?) para permitir-me o luxo de narrar experiências que a prudência manda reservar para as memórias póstumas. Mas algumas “coisas” tenho de registrar, senão nem valeria a pena mencionar esse período (Hh: p. 86).

E, ao final da obra, dá a certeza da continuidade (confirmando o rascunho de sua narrativa de vida):

Quanto ao mais, ainda não penso pendurar a chuteira: mantenho-a calçada para as bolas que derem e vierem ou mesmo as que eu tiver de ir disputar no meio do campo – quem me garante que o mais belo gol de minha carreira ainda não está por ser feito?

Até lá, vou tocando para diante, sem bumbos nem charangas, enquanto trato de cumprir até o fim, com a possível galhardia, meu Destino de Mulher.

Joia e flor: pois sim! (Hh: p. 189).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

“Iniciado em fase precoce, meu longo e apaixonado romance com a liberdade vem durando toda a vida” (Hh: p. 188). A autobiografia de Carmen da Silva tem esse matiz: “um longo e apaixonado romance com a liberdade”. A liberdade perpassa a história de Carmen, apodera-se de seu discurso e consolida-se como sua fronteira final, verdadeira Terra Prometida. A fuga, palavra que incitou uma das buscas nesta pesquisa, revelou-se no romper das amarras condicionantes do humano e, mais especificamente, do feminino.

Carmen da Silva, em fuga, busca o lugar de conforto, por isso coloca-se em constante exílio. O exílio é sempre disfórico, sempre adverso, no entanto, pode ser revertido em aspecto proveitoso. A autora resolve a questão de estar neste, que é um entre-lugar, através da literatura.

Junto ao universo literário Carmen encontra seus bálsamos. É neste universo que recobre forças para reiterar a palavra de maneira criativa – palavra que diz continuamente: todos temos o direito a essa liberdade. Auto-grafou a intensidade da vida, ergueu castelos e os derrubou, manifestou discursos para, logo ali, os desconstruir: tudo com gosto, com convicção. E nisso está o grande mérito de sua autobiografia – fez dos cataclismas seus, uma grande obra.

REFERÊNCIAS

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DA SILVA, Carmen. Histórias híbridas de uma senhora de respeito. São Paulo: Brasiliense, 1984

DUARTE, Ana Rita Fonteles. Www.overmundo.com.br/overblog/memorias-revisitadas-de-uma-senhora-jornalista

DUARTE, Kelley Baptista. Carmen da Silva: nos caminhos do autobiografismo de uma 'mulheróloga'. Dissertação de Mestrado, FURG, 2005.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad.Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. 7 ed. Rio de Janeiro: DP & A, 2002.

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_____. O entre-lugar. In: FIGUEIREDO, E. Conceitos de literatura e cultura. Juíz de Fora: Ed. UFJF/Niterói: EdUFF, 2005. GT ANPOLL – RELAÇÕES LITERÁRIAS INTERAMERICANAS.

LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico: de Rousseau à Internet. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2008.

POLAR, Antonio Cornejo. Condição migrante e intertextualidade multicultural – o caso Arguedas. In: O condor voa: literatura e cultura latino americanas. Belo Horizonte: UFMG, 2000.

QUEIROZ, Maria José de. Os males da ausência ou a literatura do exílio. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998.

SELDEN, Raman. A reader's guide to contemporary literary theory. 2nd edition. Lexington: The University Press of Kentucky, 1989.

1. Darei tratamento à 'história' de Carmen da Silva (com inicial minúscula) em contraste com a 'História' que é factual (com inicial maiúscula).
2. Iser's emphasis is ultimately phenomenological: the reader's experience of reading is at the centre of the literary process. By resolving the contradictions between viewpoints which emerge from the text or by filling the 'gaps' between viepoints in various ways, the readers take the text into their consciousnesses and make it their own experience.
3. She wanted her femininity to be unconscious so that she might 'escape from the confrontation with femaleness or maleness' (A room of one's own).
4. She believed that women had always faced social and economic obstacles to their literary ambitions.
5. She believed that when women finally achieved social and economic equality with men, there would be nothing to prevent women from freely developing their artistic talents.

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